Atlético x Cruzeiro e os vieses de pesquisa: qual é a maior torcida?

vieses de pesquisa - o tamanho das torcidas

Este blogueiro que vos posta tem uma implicância que só não é doentia porque é baseada em fatos reais. Implico pra valer com a divulgação de pesquisas pelos veículos de comunicação.

Em outras eras publiquei um post a respeito dos vieses de pesquisa, e um deles é o viés de publicação. Agora vêm as análises. Um leitor desavisado pode ler um resultado de pesquisa e tomar para si que aquilo é verdade quando bastava uma olhada nos detalhes para perceber que a análise não foi precisa. E como existem leitores desavisados às mancheias por aí, vou mexer num vespeiro bravo. O futebol. Sou mineiro, então vamos de Cruzeiro x Atlético.

Eu tenho certeza que a torcida do meu time é maior do que a do seu!

Qual time? Não interessa. O meu é maior do que o seu!

Para tirar dúvidas, o jornal Lance! e o Ibope fizeram uma pesquisa – que é repetida ano a ano – para descobrir qual é o clube de maior torcida do Brasil. Deu na mosca: Flamengo e, depois, Corinthians. Disso ninguém duvida. Nem a Globo, que prefere transmitir um Flamengo e Chapecoense ou um Corinthians e Figueirense do que um Cruzeiro e Atlético ou um Grenal.

Cerca de uma semana antes de sair esta notícia, uma pesquisa do instituto carioca Datascript, divulgada no blog RMP, do jornal O Globo, confirmava o que todos já sabiam: Mengão e Curingão na cabeça. Mas aí, o vespeiro se abre na parte de baixo da, digamos, tabela. E foi devidamente agitado pelos dois jornais e, claro, toda a imprensa impressa, televisada, radiofonada e internetada do Brasil. Mas nós, os “mineirin” especificamente, vamos reduzir o foco para “nóis”, que fica mais fácil. E, na verdade, o resto é problema dos outros.

Cito o Lance!:

Galo é destaque

(…) Já na parte do meio da tabela, o grande destaque foi o Atlético-MG, que cresceu 0,9% e atingiu 3,5% de participação, pulando da 9ª para a 6ª posição. Com essa alta, o Galo ultrapassou o seu maior rival, o Cruzeiro, que manteve o 7º lugar com 3,1% de participação”.

Cito o Blog RMP, do Renato Maurício Prado no, no dia 24/08/2014 :

“Entre os fãs do ‘velho e violento esporte bretão’, o Flamengo segue imbatível, com 18,1%, contra 14,5% do Corinthians. Seguem-se São Paulo (8,2%), Palmeiras (5,8%) e Vasco (4,8%), enquanto Fluminense (1,8%) e Botafogo (1,7%) estão praticamente empatados, respectivamente, na décima primeira e décima segunda colocações. À frente deles, estão Grêmio (3,8%), Cruzeiro (3,6%), Santos (3,0%), Atlético MG (2,9%) e Internacional (2,6%)”.

Ué! Alguma coisa está errada! Em uma pesquisa a torcida do Galo é maior do que a do Cruzeiro. Na outra, é menor. E então?

Tudo está nos detalhes

O presidente do Cruzeiro chiou, porque, das pesquisas feitas em 2014 que tentaram detectar o tamanho das torcidas, a Lance!-Ibope foi a única em que apareceram mais atleticanos do que cruzeirenses. Será que a bronca do senhor Gilvan de Pinho Tavares tem sentido? Do ponto de vista cruzeirense, tem. Do ponto de vista atleticano, é o rival exercendo o direito de espernear.

Mas e do ponto de vista da boa análise de pesquisa? Meus caros, nenhum dos dois deveria espernear. Vamos ver.

Como as duas pesquisas foram feitas?

A amostra: a do Ibope entrevistou 7.000 pessoas. A do Datascript, 6.000. Calma lá, porque esta diferença, em termos amostrais, é quase nada. Não a medimos em quantidade de pessoas, mas, sim, pelo erro máximo estimado, a famosa margem de erro. A do Ibope é de 1 ponto percentual. A outra… 1 ponto percentual! Para sermos mais exatos, 1,2 e 1,3, respectivamente. Tudo dentro do mesmo intervalo de confiança: 95%. O que significa dizer que, se a mesma pesquisa fosse repetida 100 vezes, em apenas 5 os resultados estariam fora da margem de erro.

O universo: Os brasileiros que moram no Brasil. Para o Ibope, a população de pesquisa foi os de 10 anos de idade ou mais. Para o Datascript, alguém com menos de 16 anos não seria entrevistado. Uma diferença, no total, de mais ou menos 20 milhões de pessoas. Isso não significa nada também na amostra. O tamanho seria o mesmo em qualquer dos casos, se mantidos os intervalos de confiança e as margens de erro.

Quando as pesquisas foram realizadas: A do Ibope, entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014. A do Datascript, divulgada pelo O Globo, em agosto de 2014.

Onde foram feitas as entrevistas: O Ibope e o Lance! não deram essa informação. O Datascript distribuiu suas entrevistas por 17 capitais e 95 cidades do interior. Mesmo sem dispor do dado do Ibope, o site do instituto informa que suas amostras nacionais cobrem tanto capitais quanto cidades do interior.

Contexto: Se o Galo teve uma maior exposição pela conquista da Libertadores de 2013, o Cruzeiro havia acabado de vencer o Brasileirão quando o Ibope foi a campo. Já em agosto, o Datascript pegou o clima pós-Copa do Mundo e o Cruzeiro liderando o Brasileirão.

E então?

O que se tem? Uma pesquisa mais recente comparada a outra encerrada seis meses antes e cujo campo demorou dois meses para ser concluído. Pesquisas feitas no mesmo universo, com populações de pesquisa diferentes, mas não a ponto de torná-las completamente diferentes neste aspecto, já que dificilmente as entrevistas do Ibope alcançaram a meninada. E, por fim, e o mais importante, amostras com tamanhos equivalentes e margens de erro praticamente iguais.

Já compreendeu, certo, cara-pálida? Não? Então vou desenhar. Olha o desenho aí embaixo. São dois gráficos cheinhos de linhas, pontos e números. Fiz de tudo para ficarem bonitinhos, mas não teve muito jeito não. Sou pesquisador, não sou designer! Então me dá um desconto aí!

Pesquisa torcidas 2014

Os gráficos mostram as 10 maiores torcidas do Brasil, segundo cada uma das pesquisas. Elas concordam nos cinco primeiros lugares. Nos outros cinco, não, embora os times sejam os mesmos. Só que, a rigor, as pesquisas não são comparáveis entre si. Datas muito diferentes, períodos de campo com durações muito diferentes, populações ligeiramente diferentes, contextos bastante diferentes. Então, desqualificar qualquer uma delas é balela de cruzeirense ou de atleticano, cada um que defenda seu pirão. Entretanto, aqui temos de ser imparciais. O que vou falar daqui pra frente vale para as duas pesquisas, cada uma de per si. Não vou fazer nenhuma comparação porque não tem nenhum sentido.

Voltem lá nos gráficos e vejam o imbróglio que acontece na metade de baixo, entre os cinco últimos. Tudo em empate técnico. O que quer dizer isto? Explico: cada time tem sua linha vertical no gráfico. Cada uma delas mostra as respectivas margens de erro. O ponto do meio, em verde, é a média, o resultado que a pesquisa mostrou. Os outros dois são os limites superior, em vermelho, e inferior, em azul, das margens de erro de cada pesquisa. E resultado real pode estar entre qualquer lugar destes intervalos. Com 95% de certeza.

Se eles se sobrepõem, não há como dizer qual torcida é maior. É o que acontece com os intervalos do Cruzeiro e do Atlético. Então, meu presidente, Gilvan de Pinho Tavares, esbraveje, sim. Mas contra os veículos que falaram que a torcida do Atlético cresceu e ficou maior do que a do Cruzeiro. Porque estão enganados e insuflam uma rivalidade não vai ser decidida aqui. Vai ser, como sempre, dentro de campo, na cancha do ludopédio. Mas não fique alegre: com a do Cruzeiro também não aconteceu nada!

E, como eu disse, (ei, estou falando com você, leitor!) a torcida do meu time é maior do que a do seu.

Saudações!

Visitem o site da Focus Pesquisa

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